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domingo, 16 de fevereiro de 2014

O poder do discurso psiquiátrico no TDAH

A forma como vemos e sentimos o mundo e tudo o que está presente nele é uma maneira de sintetizar e classificar tudo ao nosso redor. Essa classificação ocorre quando existe alguma diferença entre as pessoas, seja cultural, racial ou econômica, onde até mesmo pessoas que são ditas como normais são classificadas de alguma forma, podendo iniciar assim um processo de rotulação e preconceito.

Ian Hacking (2006)5 afirma que nosso mundo é um mundo de classificação e que essas classificações, ou nomes, têm efeitos particulares quando se referem a comportamentos de uma pessoa, pois o indivíduo, ao tomar consciência de sua classificação, tende a modificar seu comportamento.1 Seja de forma positiva, quando o indivíduo passa a pertencer a uma determinada classe, fortalecendo suas características; ou negativa, quando o indivíduo resiste a essa classificação.

Desta forma, é possível pensarmos que um diagnóstico dado passa a ser um ponto de divergência, pois, a partir do momento em que o diagnóstico é dado, passamos a impor um rótulo, sendo o diagnóstico um ponto de partida para um tratamento específico e padronizado. Hacking (1999) sugere uma diferença entre o elemento indiferente da doença, que são as causas biológicas e o elemento interativo, que é o estereótipo (conjunto de sintomas) do portador daquela doença e que assume ainda um caráter social, envolvendo comportamentos e julgamentos sociais.

domingo, 15 de dezembro de 2013

A linguagem no TDAH

A aquisição da linguagem é um fenômeno complexo e com um ritmo neurobiológico próprio. A aptidão para adquirir as estruturas da língua foi descrita por Chomsky como dispositivo inato da linguagem (LAD= Language acquisition device), e estaria inscrita no potencial genético humano. Existindo, portanto, algo “inato e específico que faz com que o homem fale” (AIMARD, 1998), mas é evidente que fatores culturais também interferem na aquisição da linguagem.

Alguns fatores básicos que envolvem a aquisição da linguagem são a interação e a imitação. No entanto, crianças com TDAH acabam encontrando dificuldades nestes fatores por não conseguirem estabelecer relações com colegas e professores. Outra consequência do não estabelecimento de bons contatos sociais é que a criança corre o risco de ser excluída dos grupos a que pertence, ou que tenta pertencer (o ambiente escolar, por exemplo).

Para que a aquisição e o desenvolvimento da linguagem ocorram de forma satisfatória é necessário a presença de alguns componentes bastante significativos como o desenvolvimento cognitivo, que é a base do desenvolvimento de toda a estrutura. Este desenvolvimento cognitivo está relacionado com a interação social, além de aspectos como ter alguma razão ou intenção de se comunicar. Sendo também válido ressaltar a relação que existe entre atenção e linguagem. A atenção é o conjunto de processos psicológicos que torna o ser humano capaz de selecionar, filtrar e organizar em unidades controláveis e significativas, enquanto que a linguagem é na sua forma verbal uma atividade especificamente humana, talvez a mais característica de nossas atividades mentais.

A atenção funciona como uma “janela” por onde os estímulos externos adentram no indivíduo. Estes estímulos são fundamentais para a aquisição de diversos tipos de conhecimentos, tais como a linguagem oral e diversas outras habilidades complexas de comunicação que são importantes para que haja uma interação adequada do indivíduo com o ambiente que está inserido.

A linguagem funciona como um elemento organizador que confere sentido ao mundo. Sendo assim, é um fator relevante ao desenvolvimento da capacidade de manter a atenção e inibir a impulsividade. Vigotsky em seus estudos afirma que o sujeito, ao interagir com o mundo externo, internaliza elementos deste ambiente recriando significados rumo a uma regulação do seu próprio agir. Sem uma linguagem esta autonomia não poderia se realizar porque o pensamento reflexivo, para exercer uma função especulativa, necessitaria de uma “forma” (código linguístico). A linguagem pode ser considerada como uma das primeiras formas de socialização da criança. Por meio dela a criança adquire valores, regras e conhecimentos advindos de sua cultura (BORGES e SALOMÃO, 2003).

Estudos comparativos têm mostrado que o atraso de linguagem em crianças com TDAH é de 6% a 35%, enquanto que na população sem TDAH está em torno de 2% a 6%, e mostram que existem alterações nos lobos frontais, corpo caloso, gânglios da base e cerebelo. Indivíduos com TDAH apresentam alterações específicas em uma função cognitiva chamada de função executiva, que abrange os processos responsáveis por focalizar, planejar, direcionar e integrar as funções cognitivas. A fluência verbal tem sido muito usada para avaliar as funções executivas, analisando como o sujeito organiza seus pensamentos envolvendo velocidade e produção lexical.

Sabe-se que indivíduos que apresentam atraso no desenvolvimento da linguagem podem apresentar distúrbios de aprendizagem, entre eles os de leitura e escrita. Isso ocorre porque o indivíduo apresenta dificuldade no fluxo da fala espontânea, desorganização na elaboração de formas gramaticais, dificuldades na compreensão auditiva além de trocas ortográficas e problemas de memória.

Por isso, crianças com TDAH estão mais sujeitas ao fracasso escolar, dificuldades linguísticas e emocionais. Entretanto, a identificação do problema precocemente e o tratamento adequado com equipe multidisciplinar (psicólogo, pedagogo, fonoaudiólogo, entre outros) pode ajudar estas crianças a vencer estes obstáculos.

[REFERÊNCIAS]