Uma das poucas certezas que temos em nossas
vidas é que vamos nos desenvolver, crescer. Começamos pela infância, passamos
pela adolescência, nos consolidamos na fase adulta e nos readaptamos na
velhice. As fases da vida nos perpassam e com elas, as mudanças físicas,
mentais e sociais são inevitáveis. É importante observar que esse desenvolver
ao longo da vida se dá de maneira diferente para algumas pessoas, de acordo com
suas limitações.1
Partindo da ótica do TDAH, o objetivo dessa
postagem é de tentar entender como se dão essas fases da vida, quais as
dificuldades e quais os métodos usados para lidar com os percalços consequentes
desse transtorno. A princípio, antes de começarmos a destrinchar o nosso
objetivo, temos que refletir e nos posicionar na seguinte dicotomia: o TDAH é
um transtorno temporário ou permanente?
Vale ressaltar que para uma pessoa ser diagnosticada
com o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), tem que
apresentar um conjunto de sintomas neurológicos e comportamentais e condições
ambientais desfavoráveis ao desenvolvimento, ao qual o sujeito está exposto. Um
transtorno, como o TDAH, afeta as funções executivas do sujeito (auto-controle
e auto-regulação), e não tem cura, mas
que pode ser controlado e atenuado ao longo do tempo. Com isso, podemos dizer
que o TDAH é um transtorno permanente, que quando diagnosticado e tratado de
forma consciente, pode favorecer ao portador um desenvolvimento sem grandes
danos. De
acordo com o Manual Clínico do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade,
No que se
refere aos critérios diagnósticos usados nas pesquisas, o que se pode verificar é que os critérios do DSM-IV tornam-se gradativamente menos sensíveis ao
transtorno á medida que a idade aumenta. Esses critérios mostram-se adequados
para o reconhecimento de casos na infância e inicio da adolescência. Tornam-se
um pouco menos adequados na adolescência mais tardia e menos acurados ainda à medida que a pessoa ingressa na idade adulta. (Manual Clinico do Transtorno de
Déficit de Atenção/Hiperatividade. Org.: Ana G. Hounie e Walter Camargos Jr. Editora Info Ltda, 2005. , p. 511)
TDAH na fase
da adolescência
A adolescência
é uma fase de intensas e significativas mudanças, é o momento em que o/a
sujeito(a) se vê fora da infância, começando a construir seus objetivos,
tomando posse das suas responsabilidades e desejos, até adentrar a fase adulta.
O adolescente em si é um ser em conflito, é normal nessa etapa da vida os
jovens terem que tomar decisões importantes, que por muitas vezes o
acompanharão pela vida adulta.
A relação
que um jovem com TDAH tem com a família, a escola, as suas emoções e as suas descobertas
é de extrema importância, para entender como ele se coloca diante das suas
construções. A desatenção, a impulsividade, a falta de controle das emoções, a
dificuldade em lidar com laços afetivos, ordem e organização podem levar o
jovem a se descontrolar e não conseguir progredir, ou seja, alcançar o controle
de suas capacidades. A incapacidade de prever consequências é um dos grandes
problemas do portador de TDAH, principalmente na adolescência.
A forma de lidar
com esses percalços na passagem da adolescência para a vida a adulta é ser bem
sucedido em alguma área nessa fase da vida e ter um acompanhamento terapêutico.
Seja na escola, na família ou numa atividade esportiva é
importante o jovem saber, que apesar do seu transtorno, pode realizar muito bem diversas atividades propostas nesse momento de sua vida. Ainda de acordo com o Manual, deve-se
[...]reforçar
a recomendação de se utilizar uma estratégia que enfatize os pontos fortes do
adolescente e minimize seus pontos fracos. Propicia-se, dessa forma, o sucesso
que leva a um aumento da autoestima e da autoconfiança. Chegar à vida adulta de
maneira satisfatória está relacionado a fatores como temperamento, capacidade
intelectual, desenvolvimento emocional adequado, intervenções terapêuticas,
ambiente familiar favorável e maneira de educar. (Manual
Clinico do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade. Org.: Ana G. Hounie e Walter Camargos Jr. Editora Info Ltda, 2005., p. 501)
TDAH na fase
adulta
Muitos estudos indicam que o TDAH é um
transtorno que às vezes se dissipa na fase da adolescência. Ou seja, as
características de TDAH se atenuam de tal maneira que o indivíduo consegue
levar uma vida normal, como qualquer pessoa não-TDAH. No entanto, isso só pode
ser possível quando o portador do transtorno é diagnosticado de forma correta e
assim ser submetido a um tratamento adequado, seja ele farmacológico e/ou
terapêutico, mas que seja rigorosamente acompanhado por profissionais
especializados e conscientes.
Um adulto
que tem os sintomas do TDAH continua tendo queixas em relação á impulsividade,
concentração e principalmente de sua capacidade de atenção. Percebem que essas
funções são de extrema importância para a execução de atividades mais
elaboradas que a atual fase da vida exige. Alguns adultos relatam que jamais
conseguiram ler um livro inteiro, e frequentar uma faculdade acaba sendo um
desafio. Por outro lado, alguns adultos com TDAH que conseguem completar o
ensino superior e ingressam no mercado de trabalho relatam enfrentar problemas
de baixa produtividade, pela má administração do tempo e desorganização. As
relações afetivas também são comprometidas pela dificuldade de modulação das
emoções.3
O indivíduo portador do TDAH pode criar
estratégias compensatórias para amenizar os possíveis danos, como:
o uso
constante de agenda para evitar falhas de memória, o adiantamento do relógio
para compensar o atraso habitual, e alguns até desenvolvem uma verificação
obsessiva, na tentativa de compensar uma iminente desorganização. Nesses casos,
o papel do terapeuta consiste em reforçar e até em estimular o aperfeiçoamento
desses hábitos compensadores, ao mesmo tempo, livrando o cliente da culpa de
fazer uso deles. (Manual Clinico do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade.
Org.: Ana G. Hounie e Walter Camargos Jr.
Editora Info Ltda, 2005., p. 538)
TDAH na fase
de envelhecimento
Existem poucos estudos que relacionam o idoso
ou a fase da velhice com o TDAH. Contudo, podemos fazer um breve paralelo entre
as características do envelhecimento, onde são frequentes as perdas das
competências cognitivas (memoria, raciocínio, atenção, aprendizagem, etc.) e
motoras. A ideia de “fim”, “declínio” e “morte” estão altamente ligadas ao fato
de envelhecer. Porém, uma nova concepção adaptada ao idoso, denominada de
“envelhecimento ativo”, olha para ele como alguém que ainda deve e pode produzir.2 A
ideia do Lifespan (paradigma de
desenvolvimento ao longo da vida), parecer ser uma intervenção benéfica ao
envelhecimento saudável, no entanto ainda não faz parte da formação de muitos
psicólogos brasileiros.